No dia 8 de janeiro de 2023, um grupo de pessoas que se autodenominavam manifestantes patriotas invadiu as sedes do governo brasileiro na Praça dos Três Poderes, na capital Brasília. A invasão foi parte de uma tentativa de golpe de Estado, insuflada pelo então ex-presidente de extrema-direita, que não havia sido reeleito.
O Palácio do Congresso Nacional e o Palácio do Supremo Tribunal Federal, considerados obras-primas da arquitetura de Oscar Niemeyer, foram completamente depredados. Esculturas e quadros de grandes nomes do modernismo brasileiro, como Candido Portinari e Alfredo Ceschiatti, foram danificados, assim como os mobiliários desenhados especificamente para os edifícios. As imagens da destruição são impressionantes.
O projeto de construção de Brasília, entre 1957 e 1960, envolveu diversos profissionais, mas teve como figura central o arquiteto Oscar Niemeyer. Havia muito tempo que alguns fatos relacionados à construção de Brasília me perturbavam. Niemeyer, o arquiteto moderno que levou a arquitetura brasileira à projeção internacional, a meu ver sempre foi pouco questionado no Brasil, sendo frequentemente tratado como uma espécie de gênio intocável.
A destruição de 8 de janeiro intensificou meu incômodo. Carta ao Arquiteto nasce da urgência de traçar um diálogo para tentar compreender o ocorrido.
Cartas atravessam espaços e tempos, e assim, de maneira fabulosa e ficcional, entro em diálogo com Oscar Niemeyer no dia seguinte à invasão, para relatar os fatos e compartilhar com ele meus sentimentos e inquietações.
Carta ao Arquiteto pergunta se a insurreição fascista já não estaria, de alguma forma, inscrita na própria gênese de Brasília: uma ilha de poder instaurada sobre um território sem reconhecer plenamente o que já existia ali, impondo-se sobre a natureza e ignorando tanto os povos originários quanto os trabalhadores que migraram para construí-la. Construiu-se a sede da democracia, a “casa do povo”, sem incluir o povo brasileiro ou sequer compreender quem era, e quem é o povo.
Carta ao Arquiteto traz esses questionamentos ainda de forma afetuosa, como uma conversa entre colegas de profissão, mas também profundamente indignada.